Livro de Rafael Zoehler ganhador do Prêmio Jabuti 2025 na categoria Romance de Entretenimento

Estava lendo As Fronteiras de Oline quando, recentemente, fui ao Teatro Municipal ouvir Sheherazade, a famosa obra do compositor russo Nikolai Rimski-Korsakov inspirada nos contos das Mil e Uma Noites que segue Xerazade, moça obrigada a casar com o rei Xariar.
Enlouquecido de ciúme por haver sido traído pela primeira mulher, Xariar desposa uma jovem diferente a cada noite, e as mata na manhã seguinte. Xerazade se esquiva da execução contando estórias fantásticas que prendem a curiosidade do rei. Ao amanhecer, ela interrompe os contos antes do desfecho e promete um final emocionante na noite seguinte, quando ela emenda o inicio de um novo conto. A artimanha a mantém viva por “mil e uma noites”. Ao final, Xariar decide poupar a vida de Xerazade, e eles vivem felizes para sempre.
Seguindo as aventuras de Oline, nos recantos escondidos do meu cérebro, o ritmo de fábula do livro de Rafael Zoehler se conectou ao das Mil e Uma Noites.
Oline é um guarda de fronteira preso a rituais rígidos impostos por seu falecido pai e sua própria vontade de preservar um orgulho exacerbado. Ele se impõe uma vida semelhante a de um indivíduo submetido a prisão domiciliar. Muitos cruzam a fronteira de fantasia entre a Sérvia e o Cazaquistão sob o olhar zeloso do Senhor Oline, que checa seus documentos meticulosamente, mas o guarda nunca abandona seu posto. Nem férias ele tira.
Sua única alegria é receber a visita do Viajante que, sempre que cruza a fronteira controlada por Oline, para e compartilha estórias e guloseimas do mundo afora. Quando o Viajante declara que está se aposentando das viagens, Oline, de coração partido, arremessa uma pedra do Cazaquistão para a Sérvia. Nessa fantasia onde metáforas enriquecem a leitura, a pedra desaparece pelo mundo, levando Oline a uma caça a um pedaço de território geográfico que se transforma numa busca por si mesmo.
Nas Mil e Uma Noites, Xerazade conta uma nova estória por noite para salvar sua própria vida e acaba por romper a barreira de orgulho de Xariar. Em As Fronteiras de Oline temos uma fábula a cada capítulo, onde esse protagonista contrariado cruza o caminho de novos personagens que lhe apresentam maneiras diversas de ver e encarar a vida. Assim, ele descobre o mundo e, ao final, encontra uma apreciação inusitada pelo ato de viver.
A cada nova aventura, Oline se revela mais aos leitores e com isso vamos, nós também, nos apercebendo das amarras que nos prendem a rotinas ultrapassadas e muitas vezes provocadas por orgulhos e dores que não queremos confrontar.
Rafael Zoehler ganhou o Prêmio Jabuti por essa obra que entretém, emociona e leva à reflexão, conjunto que forma o marco de grandes trabalhos literários.
Recomendo muito essa leitura!

Adorei! Quero ler este livro!